22/11/2024

José Tagus - A hipocrisia da grande mídia

Marx e Engels na gráfica da "Nova Gazeta Renana". 

José Tagus

novembro de 2024

O Ocidente costuma se arvorar como campeão da liberdade e da democracia. Pura balela. Historicamente o Ocidente, e como tal me refiro a Washington e seus lacaios e satélites, sempre fomentou, patrocinou ou apoiou de alguma forma ditaduras e repressões pelo mundo. A nossa triste mas brava América Latina é um exemplo: golpes de Estado e regimes militares pulularam sob os auspícios dos EUA, os autoproclamados "campeões do mundo livre"... E nos calabouços de tal mundo livre opositores eram torturados e silenciados.

É preciso denunciar essa hipocrisia. O duplo padrão moral do Ocidente deve ser amplamente exposto. Isso não será feito pela grande mídia, evidentemente. Os barões dos órgãos de imprensa são alinhados até a medula com a cartilha de Washington. Utilizarão seus meios de comunicação para reproduzir tudo aquilo que seus senhores mandam. Sempre foi assim, deplorável imprensa "livre", olhem novamente a hipocrisia aqui. Nada de liberdade — há um padrão que deve ser caninamente obedecido. Vejam a vergonha que é a cobertura da guerra na Ucrânia. Não jornalismo, mas a reprodução acrítica de releases e newsletters distribuídos pela Otan. Profissionais sérios teriam vergonha de se prestar a esse papel. Mas ainda existe seriedade?

Para fugir dessa imprensa "livre", abjeta correia de transmissão da ideologia imperialista, o público precisa recorrer a outras fontes de informação. Mas também aqui há dificuldades: em um mundo de pós-verdade, de terraplanismo e negacionismo, onde exatamente obter informações confiáveis? O "zap zap" é terreno fértil para todo tipo de desinformação imaginável. O vírus informacional espalha ignorância e imbecilidade em um ritmo assombroso. Run to the hills.

O campo progressista tem um papel fundamental para enfrentar isso. Afinal, não basta apontar problemas sem que se busque engajamento em soluções. Ainda que nos limites humildes de nossas forças, todos podemos contribuir para um espaço de debate público menos poluído. Por exemplo, fugindo da grande mídia — venal e a serviço dos grupos dominantes, como dito — e estimulando veículos alternativos. Ainda que não se queira, ou possa, assinar esses espaços, um like, um compartilhamento ou o mero consumo do conteúdo, lido ou assistido, já é uma grande ajuda. É assim que o algoritmo funciona: identifica o que gera engajamento e consequentemente lhe impulsiona. Parece óbvio explicar isso, mas se gostamos de algo, se algo nos diz respeito, temos um compromisso moral, ou no mínimo afetivo, de ampliar seu alcance. Não economizem "joinhas". 

Mutatis mutandis, interagir com a grande mídia vai lhe dar maior alcance. Evite. Se a mesma notícia aparece na imprensa dos barões e também na imprensa alternativa, opte por compartilhar essa última. É válido, porém, engajar para denunciar e apontar suas falácias e deturpações. Se a crítica ressoará no público que consome o conteúdo, é outra história. Geralmente já são zumbis lobotomizados. Nesse sentido é uma perda de tempo da nossa parte, mas o bom combate é isso; fazemos nosso papel e o futuro aos deuses pertence. 

Deixemos claro aqui que, como em tudo, a grande mídia também tem suas contradições. Há bons profissionais. Um jornal não precisa ser um "Iskra" ou um "Pravda" para entregar pautas favoráveis à classe trabalhadora e aos direitos humanos. Mesmo nos horizontes estreitos da imprensa burguesa, é possível encontrar coisa que preste. Por isso é válido ocupar também esses espaços. Não me convidariam, mas eu não recusaria um espaço semanal em algum jornalão. Desde que eu tenha plena liberdade criativa para escrever, evidentemente. A pena  — ok, o teclado  — é uma arma poderosa e deve estar a serviço das causas libertárias, sem admitir nenhuma censura sobre si.

Ainda sobre contradições, pode ser que a imprensa alternativa não seja tão alternativa assim. Pode ser que haja patrocinadores estranhos e interesses escusos por trás. Olhos abertos, portanto. Temos muitos anos de militância para pagarmos de poliana. Senso crítico vale para tudo. Inclusive para quando abordamos a imprensa oficial dos regimes com os quais simpatizamos, sempre edulcorando realidades e, ai de você se duvidar!, estará fazendo coro com o imperialismo. Muito cuidado com isso também. Se só a verdade é revolucionária (afinal, quem disse isso? Rosa? Lênin?), como concordo, é preciso enfrentar abertamente os problemas sociais doa a quem doer

Penso que a imprensa tem exatamente, ou deveria ter, este papel: o de apontar os problemas sociais com a maior veracidade possível. Fatos são fatos, não é questão de opinião. As idiossincrasias pessoais (legítimas ou a soldo dos interesses do grande capital) deveriam ficar restritas às colunas de opinião, com o indicativo claro de que se trata exatamente disso, de opinião.

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