![]() |
| Nicolás Maduro e a esposa Cilia Flores, 1º de janeiro de 2026. |
Lautaro Rivara
3 de janeiro de 2026
(original aqui)
Algumas tentativas de reflexões urgentes sobre a agressão militar dos Estados Unidos contra a Venezuela (e irei atualizá-las).
1) Trump NÃO TEM controle político, militar nem territorial na Venezuela. Não houve, até o momento, uma invasão militar em larga escala, mas sim uma “ação cinética” voltada a sequestrar um presidente em exercício e utilizá-lo como ferramenta de pressão e eventual moeda de troca. Nem sequer a totalidade dos ativos militares mobilizados nos últimos meses no Grande Caribe é suficiente para assumir o controle — nem precisamos falar da acidentada e extensa geografia venezuelana, mas a própria capital, Caracas, com seus imensos e organizados bairros (barriadas) populares (para se ter ideia da escala, a invasão do pequeno Panamá exigiu, em 1989, a mobilização de mais de 30 mil efetivos). Em suma, os bombardeios e ataques contra infraestruturas militares foram a cobertura operacional do que, eufemisticamente, a gíria imperial denomina uma "extração".
2) Creio — e isto é, claro, uma hipótese — que o principal objetivo não foi nem é tomar o país de assalto, mas decapitar a condução política do processo e induzir uma fratura significativa na Força Armada Nacional Bolivariana, algo que, há mais de 20 anos, os Estados Unidos e a oposição local tentam sem êxito. O calcanhar de Aquiles da agressão imperial contra a Venezuela é a ausência de uma força vassala endógena, com poder de fogo e capacidade de massas, que possa proclamar algo parecido com uma rebelião nacional "legítima" contra a "tirania", fornecendo um falso álibi "democrático" para a agressão. A VENEZUELA NÃO É A SÍRIA, nem neste nem em muitos outros sentidos. Não há nada sequer comparável ao HTS, e a unidade político-militar-territorial é, na Venezuela e em nossa região, em geral muito mais sólida do que em outros cenários de referência do Oeste Asiático.
3) Isso explica o fato de Trump ter ameaçado com outra rodada de ataques e o fato de não podermos descartar que isso possa, sim, escalar para uma invasão total nas próximas horas ou dias, sobretudo se a região e a "comunidade internacional" não conseguirem exercer nenhum tipo de ação dissuasória eficaz, seja no campo diplomático, econômico ou militar. Se o objetivo era induzir uma rebelião militar de grandes proporções, uma insurreição popular (ou uma conjunção de ambas), e isso não ocorreu por qualquer motivo, é natural esperar que a pressão armada sobre a cadeia de comando se intensifique e que o Pentágono busque compensar por via militar o que não está conseguindo, em princípio, por via política: a rendição incondicional de seu inimigo.
4) Isso explica uma verdade paradoxal, porém incontestável. Neste estranho xadrez geopolítico, os Estados Unidos deram xeque ao rei (capturaram Maduro), mas nem por isso ganharam a partida. Por ora (tudo pode mudar a qualquer momento), o controle de Caracas e do país pelas forças leais ao Estado é total — ou ao menos é o que posso concluir depois de ter falado com várias dezenas de venezuelanos em diferentes pontos da capital e do país, em distintos papéis e funções. Não há combates entre facções militares, tentativas de rebelião nem guarimbas (protestos organizados da oposição) de nenhum tipo (2026 não é 2014 nem 2017). As únicas mobilizações, a pé ou com motociclistas, estão ocorrendo a partir do campo do chavismo, embora, claro, isto também não seja 2002 (quando houve o golpe e a restituição de Chávez). Considerando a gravidade das circunstâncias, reina uma relativa calma, com a ressalva das óbvias filas das famílias para abastecer-se de alimentos diante de um cenário de incerteza.
5) Prova de tudo o que foi dito acima — e sobretudo da fraqueza da frente interna imperial — é que, em vez de anunciar um "mandatário legítimo", Trump voltou a menosprezar María Corina Machado, a quem considerou publicamente incompetente para assumir as rédeas do país. Por isso anunciou que, por ora, os Estados Unidos se encarregariam da "transição". Aqui não podemos descartar que a força invasora tente assumir o controle dos poços e das infraestruturas petrolíferas, para assim financiar a operação e iniciar o que poderia ser uma longa e imprevisível estratégia de balcanização territorial, como frequentemente se fez em outros teatros de operações (embora, novamente, a América Latina não seja o Oeste Asiático). Lembremos que, segundo o "corolário Trump" à Doutrina Monroe, os recursos estratégicos da Venezuela pertenceriam aos Estados Unidos em virtude das nacionalizações da década de 1970 e do início deste século.
6) Pode parecer inoportuno fazer lenha agora da árvore caída, mas não podemos deixar de mencionar que essa agressão foi preparada e anunciada durante meses, à vista de todo o mundo, e que a maioria dos atores (governamentais, multilaterais, comunicacionais, intelectuais etc.) decidiu tapar os ouvidos aos tambores de guerra que soavam no Grande Caribe. Ainda há tempo de corrigir erros e leituras equivocadas, mas isso exige agir de forma contundente e decidida em todos os planos, especialmente por parte dos outros países que hoje também foram ameaçados com a espada de Dâmocles da intervenção: México, Colômbia, Brasil, Cuba etc. Como tantos e tantas temos sustentado (ainda que nos chamassem de pessimistas, "conspiranoicos" ou delirantes), isso nunca teve nada a ver com democracia, direitos humanos, cartéis ou combate ao narcotráfico, mas sim com o relançamento da geopolítica imperial mais descarada e belicosa, o domínio geopolítico de nossa região e o saque colonial de nossos recursos naturais. Para amostra, basta um exemplo: a coletiva de imprensa de Trump de hoje, que certamente ficará para sempre nos anais da infâmia e do cinismo.

Nenhum comentário:
Postar um comentário